quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A MARCHA DO IMPERADOR

Novembro de 2007. Adriano não saia mais de casa. Assustado com o assédio da imprensa italiana, o atacante se arrastava até a janela de seu apartamento em Milão para ver a multidão de repórteres e fotógrafos amontoados pela calçada. Desanimado, desistia de colocar o pé na rua e voltava para o seu quarto. Chorava.

- Se eu falar que não temi pelo pior, estarei mentindo. Fiquei muito preocupada. Às vezes o Adriano se isolava no quarto e eu sabia que ele ficava sozinho para não me deixar vê-lo triste. Éramos seguidos a qualquer lugar que fôssemos – conta sua mãe, Dona Rosilda.

Nos últimos anos, a vida do Imperador foi um inferno, dentro e fora de campo. Mas o calvário começou, na verdade, logo após a glória na Copa América de 2004. Na final da competição, o atacante fez o gol de empate por 2 a 2 com a Argentina, no fim da partida, e levou a decisão para os pênaltis. O Brasil foi campeão e Adriano brilhou para o mundo. Almir, pai e fã número um do jogador, vibrou muito com o feito do filho. Ele foi o incentivador da carreira do então menino da Vila Cruzeiro, e chegou a criar um time de futebol local para ver o garoto em ação.

A comemoração de Adriano pelo título com a seleção ainda era presente quando Seu Almir morreu, em agosto de 2004. Ele tinha uma bala alojada na cabeça desde 1992, e sofreu um ataque cardíaco. O atacante ficou tão transtornado com a perda do pai que até hoje se confunde sobre o período em que tudo aconteceu. Parece que um ano apagou-se da memória do jogador.

- Meu pai morreu em 2005, e eu não pude ir ao enterro. Nunca presenciei a imagem dele morto. Depois de um tempo, me dei conta de que ele não estava mais comigo. E aí começou a pesar para mim – admite o jogador.

O tombo maior aconteceu na Copa de 2006. Adriano não vinha bem no Campeonato Italiano, mas ainda assim foi uma das apostas do técnico Carlos Alberto Parreira para conquistar o hexa no Mundial da Alemanha. Só que o Brasil perdeu, e o fracasso caiu sobre os ombros do atacante, que começou a se afundar na noite e na bebida.
- Não fiz um Italiano bom, só marquei quatro gols. Já estava em um momento ruim. Fiz de tudo para chegar bem na Copa e não consegui – desabafa Adriano.

Na temporada seguinte, a crise só aumentou: Adriano passou o ano praticamente no banco de reservas, pois o técnico da Inter, Roberto Mancini, gostava mais da dupla Ibrahimovic e Crespo. Era a hora de entrar de cabeça em uma recuperação. E, para essa missão, não havia lugar melhor do que o Reffis, famoso centro de recuperação do São Paulo.

A Inter de Milão aceitou a proposta, que soou como um investimento. A idéia dos italianos, ao mandar Adriano para a capital paulista, era ver o jogador se recuperar dos problemas de ordem emocional, que foram fatais para seu rendimento. O que era para ser apenas uma passagem rápida transformou-se em contrato. O Imperador foi anunciado em dezembro, pela diretoria tricolor, como o mais importante reforço do clube para a disputa da Copa Libertadores da América. Teria pela frente seis meses para mostrar nos gramados brasileiros que ainda é bom de bola. E retornar valorizado a Milão.

Houve gente que torceu o nariz para a contratação de Adriano. A fama de “baladeiro” preocupava até mesmo parte da diretoria tricolor. Mas, no jogo de estréia, na abertura do Paulistão, o atacante começou com o pé esquerdo, literalmente, só que de forma positiva: marcou dois golaços com a canhota e garantiu a vitória do São Paulo sobre o Guaratinguetá. O Imperador estava de volta, disposto a apagar a imagem de homem-problema...

“OLHA LÁ O CACHACEIRO”

Atire a primeira lata quem nunca saiu com os amigos para tomar uma cervejinha gelada. Os jogadores de futebol não são diferentes. Mas, com Adriano, esta situação passou a ser intolerável. Com o rótulo de alcoólatra, o atacante precisaria de muito esforço para convencer os torcedores de que estava mudado. E sóbrio.

- Eu tinha uma imagem bacana, mas agora ficou ruim porque eu fiz um monte de besteiras. Estou tentando modificar isso e vou conseguir. É muito chato você sair na rua e ouvir ‘olha lá o cachaceiro’, ainda mais quando a família está contigo – desabafa.

Foram inúmeros os escândalos envolvendo o nome de Adriano. As publicações italianas eram implacáveis. Ele tentava não acompanhar a mídia, mas sempre havia alguém para mostrar as manchetes cruéis. A cada página de jornal, o Imperador sofria e se isolava ainda mais. Principalmente quando as notícias não eram verdadeiras. Hoje ele até ri de algumas situações que causaram muita dor de cabeça. O que era trágico tornou-se cômico.

- Inventaram uma história com uma famosa atriz pornô italiana. Montaram uma foto dela e minha, na Sardenha. E ela foi à televisão falar que eu estava com ela, que eu chorava para ela... Você não tem noção! Nunca tinha visto essa mulher na minha vida! Entrei com um processo, mas até provar que não era verdade, fico manchado. Saía na rua e ficavam falando, me apontando. Eu não podia sair na rua – diz o jogador.


Cada notícia, verdadeira ou não, era um motivo a mais para que Adriano percebesse que era impossível se recuperar na Itália. Claro, ele admite que não é santo. Mas explica que, mesmo quando errava, sempre tinha alguém para se aproveitar de sua fraqueza. Em outubro de 2006, o jornal sueco Aftonbladet divulgou algumas fotos do Imperador em uma festa, cercado de mulheres e com um cigarro na mão. Ele explica que estava bêbado e as garotas foram levadas por um amigo. Pediram para tirar fotos com ele, que aceitou, mas não imaginava que as imagens fossem parar nas mãos da imprensa. Para piorar, um fotógrafo apelou para a extorsão.

- Ele exigiu e não aceitei. Ele ligou para Inter, para o presidente, queria me prejudicar ainda mais. Em uma das fotos, havia sal grosso na mesa, e ele quis insinuar que era cocaína. Eu falei que ele podia publicar, porque dinheiro meu não iria arrancar. Era meu dia de folga. Aí ele vendeu para os jornais. E depois foi preso por extorsão – conta.

Adriano garante: sempre que sofreu com a hostilidade dos torcedores em sua época mais crítica, não pensou em reagir contra eles. Mas, em uma ocasião, perdeu a cabeça. Afinal, os xingamentos de um torcedor, na saída do estádio, incluíram a mãe, que estava com ele.

- Um cara gritou “figlio de putana”. Não agüentei. Saíram dois policiais para me segurar, e derrubei os dois. Quando ia bater no torcedor, conseguiram me impedir. Foi quando pensei que realmente não dava mais para mim – confessa, descrevendo a conta d’água.

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Engana-se quem acha que o desafio de Adriano é aqui no Brasil. A verdadeira pedreira da carreira do Imperador o aguarda na Itália. Será vestindo a camisa da Inter de Milão que o atacante terá de mostrar ao mundo que ainda tem majestade para reinar no futebol. Uma pontinha de vingança? Talvez, mas compreensível para uma pessoa que sofreu demais e não conseguiu sempre apoio, mas novos problemas.
- Eu tenho uma vontade enorme de voltar para lá e mostrar para eles (italianos) que ainda sou o Adriano. Pode ter certeza que essa vontade está aqui dentro (aponta para o peito). Vou voltar para calar a boca deles. Estou me estruturando para chegar lá e encarar isso tudo – diz.
Mas não será fácil voltar ao Velho Continente e não temer que os dias ruins aconteçam de novo. Adriano sabe que a imagem que os italianos têm hoje dele é de um jogador problemático. E, apesar de admitir que errou muitas vezes, o atacante também acha que houve exagero da mídia ao relatar seus conflitos pessoais. Por enquanto, ele está receoso sobre como será o retorno. Mas terá até julho para superar este medo.
- Fico um pouco como pé atrás por tudo o que aconteceu. Eu errei, nunca neguei, mas tenho um pouco de medo, porque a imprensa de lá me prejudicou bastante. Nunca maneirou para me deixar mais tranqüilo. É claro que eu tenho receio de voltar e ter aquela pressão de novo. Até mesmo das pessoas. O povo brasileiro é diferente do italiano, que é mais frio, não conversa muito – compara o jogador.

BOX: NO DIVÃ COM ADRIANO

Quando Adriano foi apresentado oficialmente como reforço do São Paulo, repetiu na entrevista coletiva a expressão “volta por cima” nove vezes. O que parece uma obsessão é, na verdade, um exercício de afirmação, comum para quem faz terapia. Devastado com a má fase na Inter de Milão, os numerosos escândalos envolvendo seu nome fora de campo e inconformado com a morte do pai, seu grande companheiro, Adriano resolveu pedir ajuda médica ainda na Itália, para combater a depressão.
- Mas lá não me dei bem, porque não me sentia à vontade com o terapeuta italiano para conversar e me abrir. Não fucionou. Não conseguia me expressar – explica Adriano, que desistiu do tratamento após três meses, insatisfeito com o andamento das consultas.

De volta ao Brasil, já contratado pelo São Paulo, o jogador recebeu a indicação de outro profissional, pela própria diretoria tricolor, e passou a ver resultados. Adriano faz pelo menos uma sessão por semana com o novo psicólogo, que suspendeu o uso dos antidepressivos que o Imperador vinha tomando. O nome do médico é um mistério. Adriano sorri ao falar dele.

- Eu não posso falar quem é, é segredo! Mas ele está me ajudando demais. Não sou de falar muito, fico quietinho, e isso me prejudicou muito antes, porque eu tinha que botar para fora e não conseguia.

Dona Rosilda, o irmão Thiago, de oito anos, e o restante da família residem no Rio, mas estão com o atacante sempre que possível. A mãe viaja quase todos os fins de semana para São Paulo e é o termômetro da felicidade do Imperador.

- Ela não me via assim há muito tempo. Hoje, quando minha mãe me encontra, já sabe que estou bem – sorri o jogador.

(Maio 2008)

7 comentários:

Fred disse...

A cultura do MELHOR

Desde crianças somos incentivados a sermos os melhores. O "segundo melhor" não é o bastante.

Pesquisas mostram que "satisfiers" (aqueles que fazem algo ou tomam uma decisão quando um determinado critério é atingido) tendem a ser mais felizes que os "maximizers" (aqueles que buscam uma solução ótima, perfeita: a melhor).

Por que será que somos treinados a sermos infelizes então???

Só existe um único MELHOR. Os outros são todos "piores".

Adriano, você não precisa ser o melhor do mundo, nem o melhor do Brasil, nem o melhor do Flamengo.

Você precisa ser feliz.

Fred disse...

Gi diria para Mari:
Namorar um Imperador não seria nada mal, hein? Ou só um selinho, quem sabe ...

Ju diria para Gi:
Ele tem um holerite gordo! E trabalha nos domingos!

Daniel diria para Rebeca:
Ele era triste assim porque não tinha um playstation ...

Joanna de Assis disse...

hahahahaha, to rindo muito aqui, Fred... hahahaha

Pedro Spiacci disse...

Bela postagem,, o legal seria contar os bastidores da volta do Imperador ao Flamengo, mas talvez isso seja cair num senso comum, pois a contratação dele pelo maior do Brasil foi muito noticiada, porém penso no caso paulista também foi bem citada mas você deu um enfoque diferente bem legal, meus parabéns!

Nilton disse...

É preciso ter coragem para dar um "bico" em tudo e voltar para casa...
Com certeza o Adriano é muito, muito, muito mais feliz aqui no Brasil...mas ainda acho que no próximo ano ele volta para a Europa.
Às vezes, pra se ter certeza de alguma coisa é preciso provar de outra...
E a vida continua...

Bjs

Fred disse...

Joanna, tenho que confessar que você foi a responsável por um dos momentos mais engraçados da minha semana. Aliás, você e Val Baiano.

Após aquela elucidante declaração de Val Baiano sobre a aceitação da "mala branca" (surpreendente por tamanha clareza e brilhantismo de argumentação) sua reação dizendo "Vai ou não? Não entendi!" foi sensacional. Confesso que eu mesmo tive que entrar no site da globo e rever a reportagem, confirmando o exemplo de perfeita retórica.

E como diria Sócrates (o filósofo, não o jogador): Só sei que nada sei. E, pelo jeito, não só eu. Eu, você, Val Baiano ...

Parabéns pela reportagem!

Fabiano Facó disse...

Jhoannynha, bela reflexão sobre o recente momento do Adriano! Meu Pai se foi quando eu tinha 14 e Minha Mãe agora com 47! A gente quase pira com as perde desses Seres! O Adriano surtou com a perda do Pai e lá na Italia não teev "colo" da familia! Só o dinheiro e fama não eram e nunca serão suficientes para humanos suprirem esse vácuo! Lá no Rio, no acomchego da familia ele tem mais chances de buscar o centro dele e seguir em frente! Não é ?