domingo, 15 de junho de 2008

POR QUE ESCOLHI O JORNALISMO?

Em uma aula de história da comunicação na faculdade, debatemos a funcionalidade do jornalismo. “Transmissão de conhecimento ou degradação do saber”?

Lembro-me bem da discussão. Aliás, quando ainda estudava, meu grupo de projeto experimental (conclusão de curso) realizou uma palestra envolvendo jornalistas e historiadores. Até que ponto o jornalismo é história e o historiador faz jornalismo? Não conseguimos chegar a um consenso. Muitos pesquisadores consideram o jornalismo como fonte de deturpação da história, já que é sempre opinativo. Outros dizem que não, que o jornalismo pode e deve ser o registro do dia a dia. Hoje, penso que essa discussão sustenta a minha vontade de ser jornalista. Minha escolha profissional foi motivada pela curiosidade sobre o mundo e a idéia de que a informação tem caráter transformador. Sim, nós jornalistas somos cidadãos especiais.

Em setembro de 1998 eu estava terminando o colegial. As dúvidas dos estudantes sobre qual curso escolher eram gerais. Eu também sofria desta hesitação. Pensava: “Faço Jornalismo ou faço Direito”?

Sempre me disseram que eu tinha muita habilidade para me comunicar, e que possuía uma boa retórica, qualidades fundamentais para se dar bem em qualquer um desses cursos. Mas na hora de fazer minha opção, não tive de pensar muito e escolhi o jornalismo, por uma única razão: gostava de escrever.

Entrei na faculdade e em pouco tempo de curso já havia me tornado uma pessoa bastante cética. Costumava colocar em dúvida a veracidade de quase todas as notícias que lia nos jornais. Queria fazer perguntas e não encontrava as respostas. Hoje, após nove anos de labuta, reafirmo essa característica, e percebo o quanto é tendencioso o meio jornalístico, ainda mais na era dos jabaculês.

Jornalismo é também fogueira de vaidades. Cada matéria é parte da biografia do repórter, que se vangloria com cada linha. Não quer só ajudar a fazer o registro de um acontecimento importante, mas sim entrar para a história como personagem.

São preocupantes os caminhos que a imprensa vem tomando. A notícia é vulgar, espetacular, decorrente de um jornalismo preguiçoso e superficial. Como vamos fazer história assim? Tudo o que o jornalista deseja é provocar impacto, e para isso não interessa se a raiz da informação é comprometida ou não. Troca de insultos rende muito mais do que uma notícia bem explicada.

Na belle époque, apogeu do imperialismo britânico, tempo de grandes avanços científicos mas também de diáspora para milhões de europeus, o jornalismo era pensado com duas funções distintas: a de manter viva a fantasia sentimental e aventureira do público, e a de educá-lo para o consumo. Hoje, em tempos em que mulher pelada e briga de casal rendem mais pontos no ibope do que um bom documentário, o que vale a pena fazer?

O jornalista está valente demais. Sócrates deveria servir de inspiração nessas horas. “Só sei que nada sei”. Afinal, a sabedoria é reconhecer a ignorância. Além da arrogância, outra ameaça ao jornalismo é o interesse de classes. Mais uma vez a filosofia explica. O drama do jornalista é como o drama da jovem Antígona. Seguir a lei de Deus ou a lei do Rei? Ei, você, repórter. Quem você deve obedecer? As leis de mercado? Cláudio Abramo, me socorra. Diga à Antígona e a todos os jornalistas qual é a ética do marceneiro.

A imprensa brasileira não está precisando de mordaças, mas sim de referências. O fim da obrigatoriedade do diploma talvez venha a piorar ainda mais a situação do jornalismo. Precisamos de boa formação profissional e de menos mesquinharia. Um jornal diário é um pântano de privilégios. Você vê em uma mesma página uma matéria sobre “as qualidades do novo carro da Ford” e um anúncio sobre o mesmo automóvel. Será que os dois são anúncios e a gente não percebeu?

O jornalista tem que ter no mínimo respeito à verdade e liberdade para informar. Esse binômio ético é o que ampara o bom trabalho da imprensa. Não quero ter de aceitar que o jornalismo é um estelionato. Não quero aceitar viagens para escrever bem sobre um campeonato ou sobre um novo hotel que foi inaugurado em Mato Grosso do Sul. Não podemos permitir a decadência, pois não estamos condenados a ela, não.


(Este texto foi escrito em 2003 durante a fase de seleção do Curso Abril de Jornalismo que eu fiz e indico)

11 comentários:

Gustavo D.G. disse...

Poxa Joanna, que texto incrivel!!! Pensei em destacar um ou outro trecho dele mas seria uma injustiça com o conjunto. Maravilhoso... comovente perceber que há pessoas na imprensa - na esportiva, especialmente - que se incomodam em distinguir o jornalismo da "espetacularização dos fatos". Brilhante! Beijo! Gus

marcio torvano disse...

O jornalismo,
do show, da seriedade, do ridículo.
a profissão dos quase artistas, dos que se acham poderosos,
mas tem poder sim,
nas suas palavras, na sua escrita. e só.
nada aumenta mais o ego do homem da caneta quando ouve uma pessoa comentando sua informção, mas será que sua informção é verdade? até que ponto? sem compromissos?
tudo muito complicado, tudo uma grande discussão, sem fim, pois o jornalismo não se termina com um ponto final, e sim com uma interrogação.
estudo para entrar neste mundo de sonhos que só existe a realidade, dos fatos, enfim, é algo complicado.

marcio torvano disse...

O jornalismo,
do show, da seriedade, do ridículo.
a profissão dos quase artistas, dos que se acham poderosos,
mas tem poder sim,
nas suas palavras, na sua escrita. e só.
nada aumenta mais o ego do homem da caneta quando ouve uma pessoa comentando sua informação, mas será que sua informção é verdadeira? até que ponto? sem compromissos?
tudo muito complicado, tudo uma grande discussão, sem fim, pois o jornalismo não se termina com um ponto final, e sim com uma interrogação.
estudo para entrar neste mundo de sonhos que só existe a realidade, dos fatos, enfim, é algo complicado.

Mateus disse...

joana esse foi um dos melhores textos que vi nos ultimos meses...
....
É preocupante os caminhos que a imprensa vem tomando. A notícia é vulgar, espetacular, decorrente de um jornalismo preguiçoso e superficial. Como vamos fazer história assim? Tudo o que o jornalista deseja é provocar impacto, e para isso não interessa se a raiz da informação é comprometida ou não. Troca de insultos rende muito mais do que uma notícia bem explicada.
....
esse trecho ja diz tudo
parabens!!!
esse texto passou da fase de seleçao ??
grande abraço!!!

Joanna disse...

Opa, o texto me ajudou a passar no curso, sim... hehehehe

Tatiana disse...

E eu escolhi porque tinha aulas boas para dormir... He he he

Bjus,

Tati

aldoneto disse...

OLha
a Joana é uma pentelha mas este texto esta sensacional. Concordo com os comentários do gustavo pois ter uma profissional com esta visão na imprensa esportiva é realmente uma luz no fim do túnel. Gostei tanto que mandei meus estagiarios lerem e me escreverem um comentário do texto ate amanha.
Bjs Joana
tu é chata mas de vez em quando acerta uma

Cristina Casagrande disse...

Cara, tava dizcutindo o assunto com um amigo agora. Muito bom Jô!!!

Beijos.

fabito disse...

Exelente, sin duda una gran escritora que plama la realidad del periodismo mundial!!

Edu Cesar disse...

Como diria um famoso narrador de TV aqui da praça: "é boa essa Joanna!"

Natalia Belucci disse...

jornalismo ou direito?

me vi exatamente nessa frase, e escolhi jornalismo pq gosto de escrever...

acho que nem se lembra de mim, fui ao cha das minas com você .. mas enfim.. mto bom o seu blog =)

beijos joo =*