Toda mãe já alertou: cuidado com a tomada! Mas de que adianta o alerta? Parece que quanto mais ela grita, pede, se descabela, mais os filhos sentem vontade de enfiar a mão no buraquinho. Resultado? Choque. Dor. Susto. Conclusão? É, ela tinha razão. Mas você não faria diferente.
Iria colocar o dedo na tomada só pode desacato. Para poder dizer com propriedade, ainda com a ponta do indicador dormente, que agora você sabe que lá você não se mete mais. É um ponto de sabedoria agora. 'Eu sei que a tomada dá choque, eu senti'. Somos todos aspirantes a São Tomé. E isso é um problema danado.
A tomada aqui é uma metáfora que todo mundo já viveu trocentas vezes. Eu já enfiei a mão em tanta tomada, vocês não imaginam. Algumas vezes a bendita falhou: não tomei uma descarga elétrica como previsto. Já em outras oportunidades, a dor chegou até no pâncreas.
Isso vale para tudo na vida. Nosso caminho é repleto de tomadas. Grandes, perigosas, chamativas. Invariavelmente, nos sentimos atraídos por elas. São misteriosas. Não importam o que digam. Enquanto você mesmo não comprovar que ela não faz bem, o sossego não vem. Não adianta aconselhar o vizinho. Ele tem sua própria tomada. O exemplo da sua não fará a menor diferença.
Sabe aquele papo de velho? "Ah, se eu tivesse a sabedoria de hoje com os meus 20 anos...". Isso é impossível. IMPOSSÍVEL. Com 20 anos, você não passou nem por 1% das tomadas previstas da vida. E não tem solução. O choque é necessário. Nas tomadas do trabalho, do amor, da família, da amizade... Dos erros que cometemos e iremos cometer. Das falhas. Elas simplesmente não nos deixam em paz.
É por essas e outras que dizem que conselho não se dá, se vende. Se fosse bom mesmo, óbvio que o serviço deveria ser cobrado. Tudo o que é de graça não tem valor, literalmente. Se não doer no bolso, ou no dedo, não vale. Então, dá-lhe mais uma tomada para eu acordar para a minha vida.
Estou olhando as paredes do meu escritório. Tem exatamente 5 tomadas. Será que ainda me resta alguma lição a aprender enquanto escrevo este post? Não sei. Só sei que, doendo ou não, vou continuar levando meus choques. Deixem todas as minhas tomadas em paz... Uma hora eu canso dessa dor e paro com essa vida cheia de eletricidade. Ou mudo a voltagem. Ou espero aprender a lição antes que o dedo vire cinzas.
"Não estamos bem, mas vamos ficar"
Há 11 anos